Aula
de Filosofia: análise da música de Chico Buarque: "Mulheres de
Atenas", e do texto de Daniel Frias.
A mulher da Grécia Antiga e possíveis aspectos da
cultura grega na contemporaneidade
A condição social e política da mulher da Grécia antiga se diferem
largamente dos direitos conferidos aos homens de tal sociedade. Elas não eram
consideradas cidadãs e, do mesmo modo, ocupavam uma posição de inferioridade
social em relação aos indivíduos do sexo masculino. Destarte, tal relação de
desigualdade corroboraria por atribuir às mulheres atividades direcionadas, em
geral, às tarefas domiciliares e à procriação, isto é, o ambiente “natural”
delas estava confinado ao lar, educando e gerando os filhos de seus maridos,
sendo que, assim, elas deveriam ser subservientes aos seus cônjuges e lhe
prestar total fidelidade.
Aliás, o status social da antiga mulher grega era condicionado pelo meio
cultural e econômico em que ela estava inserida. Um exemplo disso são as
mulheres de Esparta, que desfrutavam-se de maiores “regalias” em comparação às
atenienses, visto que eram proporcionado às espartanas, por ensejos políticos,
uma maior liberdade para a prática de atividades físicas e, também, para o
gerenciamento das terras de seus maridos, isso enquanto na ausência deles.
Embora fosse comum dedicarem-se mais ao aprendizado de serviços
domésticos e manuais do que à erudição, as mulheres de origem aristocrática
aprendiam a ler. Já no casamento, as atenienses, por exemplo, eram proibidas de
conviver com outros homens que não fossem seus parentes. Ademais, sendo
principalmente pautado na idéia de aliança entre famílias, o matrimônio na
Grécia antiga era decidido e arranjado pelos pais das mulheres, as quais se
casavam cedo, em sua puberdade.
No entanto, na classe social mais baixa, a mulher usufruía-se de uma
maior autonomia do que a da aristocracia em termos econômicos e sociais, uma
vez que devido à sua condição financeira precária ela necessitava trabalhar, o
que lhe permitia gerenciar o seu próprio dinheiro. Nesta camada social a
prostituição feminina era comum, onde nela podemos encontrar, entre outras
categorias de prostitutas, as pornais e as cortesãs.
Essa concepção de inferioridade da mulher em relação ao homem teve como
respaldo grandes pensadores da época, como o filósofo Aristóteles. Segundo ele,
no que diz respeito à sexualidade dos indivíduos a diferença é indelével, pois,
independente da idade da mulher, o homem sempre deverá conservar a sua
superioridade (1998, pag. 33). Tal percepção do filósofo se embasou na noção de
“ordem natural”, quer dizer, ele hierarquizou a natureza da alma, colocando o
homem livre num plano superior ao da mulher que sofreria de uma carência e
maturidade de espírito, sendo ela, portanto, incapaz de exercer qualquer outra
função que não fosse a de obedecer ao seu marido, este o qual seria responsável
por governar a família.
Aristóteles proferiu severas críticas sobretudo à autonomia que tinham
as mulheres espartanas em relação às atenienses. O Estagirita não aceitara, de
modo algum, que as espartanas fossem educadas similarmente aos homens, mesmo
que fosse sob o pretexto de ter mulheres com melhores aptidões e atributos
físicos pra gerar filhos, uma conjectura que se concebia em Esparta.
Um pensador que teve uma concepção parecida à de Aristóteles e que
influenciou fortemente a filosofia deste foi Demócrito (460 a.C. – 370 a. C.).
Em alguns de seus fragmentos, Demócrito, também associando a mulher à natureza,
reduziu a função dela à satisfação sexual masculina, qualificando-a como uma
mera fonte de prazer carnal. Ainda que a concepção de Demócrito acerca das
mulheres espartanas não ser bem defina, ele precipita a idéia de ginocracia
(governo destinado por natureza ao homem exercido pela mulher); uma noção que
seria utilizada, posteriormente, inúmeras vezes por Aristóteles para condenar a
política e as mulheres de Esparta.
Todavia, cabe fazer aqui uma pequena ressalva: reduzir a filosofia
destes dois grandes pensadores a um simples comportamento machista seria um
grande equívoco, tendo vista que a estrutura social de tal período histórico
era determinada pela “natureza”. Logo, o erro que cometera Aristóteles e
Demócrito ao inferiorizar a mulher em comparação ao homem, talvez, deva-se mais
a um fator de ignorância fisiológica, subjacente à época, do que um ato
propriamente pré-conceituoso.
Já no contexto atual e partindo do pressuposto de que ao longo da
história a mulher recebeu, de certa forma, uma autonomia em relação ao
trabalho, à organização política e social, à estrutura familiar e em diversas
áreas no que se refere à ética e a moral que concebemos hoje, percebe-se que
ela transcendeu de fato a condição de uma simples incubadora humana e criada
para exercer uma função mais ativa na sociedade a qual vivemos. Assim, a
mulher contemporânea contrapõe-se, em vários aspectos, à mulher idealizada na
Grécia Antiga, que era subjugada por sua incapacidade intelectual, física e de
“não-virtuosidade” em comparação aos homens deste período histórico.
Além dessa perspectiva, poder-se-ia notar que tal concepção grega de
inferioridade feminina herdada por nós manifesta-se hoje, dentre outras formas,
por meio de ideologias. Se para os gregos antigos e, igualmente, para
Aristóteles o homem estava num nível de perfeição superior ao da mulher devido
a sua maior capacidade intelectual, física e, deste modo, “espiritual”, nas
sociedades modernas há tendências ou, melhor dizendo, sintomas decorrentes de
tal concepção: a inversão de valores e/ou a ideologia
feminina. Encontramos, não raro, tal ideologia e inversão de valores
atrelados ao senso comum. Se, por um lado, sob a visão machista que herdamos de
outrora, a mulher se apresenta como um ser frágil, intuitivo, sensível e,
então, seria por natureza designada à maternidade e às atividades domésticas,
sendo que assim ela deveria permanecer sob os cuidados de seu marido e de sua
família, exercendo o “papel da mulher”; por outro, o próprio senso comum
propõe, ainda, ideologicamente a inversão de valores ou a troca de papéis
(ideologia feminina). Uma ilustração que nos remete a isso, podemos encontrar
em frases como: “por detrás de um grande homem há sempre uma mulher”. Outro
fator significativo na troca de papeis são as idéias errôneas acerca da
superioridade da mulher em relação ao homem, seja pela sua “maior capacidade
intelectual” ou pelas “tarefas que só elas sabem fazer”.
Historicamente, esses “sintomas
ideológicos” devem-se ao fato de que as mulheres conviveram em sociedades as
quais eram, em geral, dominadas pelos homens. Como as divisões sociais destas
civilizações davam-se de acordo com a “ordem natural” de cada indivíduo, as
mulheres eram designadas prioritariamente à função materna, distanciando,
assim, do trabalho braçal e intelectual exercido pelo homem. Esse sistema
social e relação de poder colocaram a mulher num lugar subordinado, como uma
simples auxiliar do chefe da família. Contudo, sabe-se que atualmente essa
situação mudou. A estrutura política e social se modificou e, ainda, está se
modificando. Não obstante, tais ideologias ainda persistem.
Texto: Daniel N. Frias.
Graduando em Licenciatura Plena em História pela CEUCLAR.
Bibliografia.
ARISTÓTELES. A Política. [tradução de Roberto Leal
Ferreira]. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
CARTLEDGE. Paul. Demócrito: Demócrito e a Política Atomista.
[tradução de Angélica Elisabeth Köhnke]. São Paulo: Editora UNESP, 2000, pág.
18-21.
CHAUI. Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Editora
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SILVA, Semíramis Corsi. História Antiga I. (Caderno de
Referência de Conteúdo – CEUCLAR – Batatais, SP). 2010, pag. 102-103.
nao encontrei o conteudo necessario
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